Elas são as que mais sofrem, mais trabalham e menos ganham. Mesmo assim, são fortes e guerreiras

dia-das-mulheres

Moças, não esperem, aqui, aquela típica reportagem sobre o Dia da Mulher. Aquela sobre a mulher ocupando espaços ditos “masculinos” no mercado de trabalho – como se houvesse um trabalho para mulheres e outro para homens. Também não vai ser um perfil da mulher baiana, com dados como idade, escolaridade, quantidade de filhos… Todo mundo já leu ou assistiu uma dessas.

O estudo divulgado anteontem pelo  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), utilizando séries históricas do IBGE – só reforça a desigualdade de gênero no país. Mulheres são as que mais sofrem, as que são mais violadas, as que mais trabalham e as que menos ganham.  Outros dados, divulgados  ontem pelo IBGE na Bahia, dão um alento e apontam para uma “leve tendência” de redução da desigualdade de rendimentos: passou de 19,5% para 14,7% em 2016, na Bahia. Em Salvador, no mesmo período, foi de 31,9% para 23,4%.

A realidade da mulher nordestina, preta e pobre é ainda pior. “As desigualdades de gênero se convergem com as desigualdades raciais e deixam as mulheres negras em posições piores, menos valorizadas, mais subalternas”, diz a especialista em políticas públicas e gestão governamental Natália Fontoura, uma das autoras do estudo do Ipea. Mesmo assim, ela diz que é possível mudar o quadro. “Se tivermos um estado que priorize o enfrentamento dessas desigualdades, daqui a algumas décadas, podemos superar”.

A gerente de conteúdo e comunidade da ONG Think Olga, Cláudia Oliveira, destaca que, nos últimos anos, o maior avanço feminino foi entender a importância de as mulheres estarem juntas. “Mas as adversidades são as mesmas que a história sempre se encarregou de nos atribuir: diferenças salariais, enxergar a mulher como um ser doméstico, abuso, assédio, silenciamento”.

Longo caminho
A verdade é que não está tudo bem. Mesmo assim, as mulheres são fortes e guerreiras. São, em bom baianês, mulheres retadas. Retadas como a professora de Matemática Norma Souza, 56 anos. Docente do Instituto Federal da Bahia (Ifba) e doutora em Estatística, como todas as mulheres, ela tem uma luta para chamar de sua.

Filha de uma empregada doméstica baiana, nasceu em São Paulo, mas veio para Salvador com 4 anos. “A gente era bem pobre, mas sempre tive facilidade de lidar com números”, lembra. Acabou entrando para a escola técnica, na época do ensino médio, e depois cursou Licenciatura em Matemática.

Em 1987, se tornou professora da antiga Escola Agrotécnica Federal de Catu, no Recôncavo. Com o emprego, viveu a maratona que era ser mãe e prosperou em uma carreira que ainda tem poucas mulheres.  “Ser mulher exige muita força da gente, muito útero. Mas eu sempre fui muito determinada. Nem olhava se eu era negra, se era mulher, se era pobre. Se eu achava que ia conseguir, ia atrás”.

Mulheres retadas
São mulheres retadas como a atleta paralímpica Verônica Almeida, a nadadora baiana que entrou para o Guiness Book – o livro dos recordes. Ela foi a primeira esportista paraolímpica a realizar a travessia Mar Grande-Salvador, que tem 12 quilômetros, em 2015. Cadeirante, ela tem Síndrome de Ehlers-Danlos desde 2007.

A doença é degenerativa, progressiva e não tem cura. Ela sabe bem do que é a capaz. “Conquistei a independência sem cair nos padrões comportamentais da sociedade e luto contra o machismo imposto por uma cultura retrógrada que nos separa do sexo masculino. Não somos sexo frágil. Somos, sim, exemplos de coragem, força, superação, persistência, ousadia e garra”, defende.

Também são mulheres retadas como a major Denice Santiago, comandante da Operação Ronda Maria da Penha. Aos 45 anos, ela é uma das três mulheres com patente de major na Polícia Militar que comandam companhias – além dela, a major Maria Milanezzi e a major Maria Aparecida Freire.

Denice se formou na primeira turma de policiais militares femininas, há 27 anos. Hoje, é responsável por proteger 637 mulheres na Bahia. “A gente entende que a sociedade é machista, mas nós temos casos de homens que estão no terceiro processo por violência doméstica”.

Mas as mulheres retadas são muitas. Elas são como Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opó Afonjá; como a deusa do Ébano do Ilê Aiyê, Gisele Soares; como a estilista Najara Black. São retadas como Paulett Furacão, Ivete Sangalo, Márcia Teixeira, Rose Silva, Daniela Mercury, Catherine Freire. Retadas como todas as mulheres que participam da campanha do CORREIO hoje. São retadas como a leitora que nos lê neste momento.

Responder